Psicopedagogia

TRANSTORNOS COMPORTAMENTAIS: INTERVENÇÃO EFICIENTE OU JUSTIFICATIVA PARA OMISSÃO DE UM TRABALHO PEDAGÓGICO?

É imprescindível que na área da educação, todos os profissionais tenham conhecimento dos possíveis transtornos comportamentais que acometem crianças em período escolar e com isso, geralmente acarretando consequências para toda a vida do indivíduo.

O diagnóstico precoce é importante para que haja estimulação cognitiva, motora, adequadamente, a fim de que os efeitos de tais transtornos comportamentais sejam amenizados a tal ponto que o sujeito possa gozar de uma vida mais próxima do que comumente chamamos de normal.

            Os principais transtornos que acometem o sujeito em idade escolar, são:  Transtornos do desenvolvimento, que engloba entre eles o autismo, asperger e os transtornos de aprendizagem, alguns mais conhecidos pelos educadores mas nem sempre trabalhados de maneira correta tais como o TDAH, dislexia, transtornos opositivos, de humor e também transtornos de ansiedade. O campo para análise dos transtornos que surgem nessa fase da vida do ser humano, não por acaso a vida escolar, merecem nosso cuidado e esmero científico no contato com os mesmos.

            A diversidade do organismo, do sujeito, a vida pessoal de cada pessoa é vasto. Mesmo que haja definições científicas para cada tipo de transtorno, o que é necessário ser feito diante das informações e conceitos é não se pautar em laudo para rotular o aprendente e abandoná-lo à própria sorte dentro de uma sala de aula, cuja escola diz ser inclusiva, porém o fato da criança ser acolhida em seu ambiente escolar, não garante que a Instituição seja de fato inclusiva.

            Reforçada pela LDB 9394/96, a Educação Especial no Brasil faz parte da Educação Básica, perpassando pela Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. É uma modalidade de ensino. Já o teor da Educação Inclusiva  acompanha propostas e metodologias específicas para o atendimento às crianças com deficiência e com dificuldades severas ou brandas de aprendizagem.

            O bom professor não se apoia em nenhum laudo para justificar o mau rendimento do aluno. Conforme o artigo de Beguoci (2017) para a Revista Nova Escola, o laudo deve servir para nortear o trabalho a ser realizado com o aprendente e não justificativa para que o aluno não tenha nenhum estímulo como um todo, dentro e fora da Instituição de Ensino.

            Todo profissional da educação necessita ao menos ter noção do que se trata o CID – Classificação Internacional de Doenças, apresentado sempre com atualizações pela OMS – Organização Mundial de Saúde, para que aja corretamente, da maneira mais profissional possível diante de quadros diversos em que ser encontra o aluno que chega à escola.

            Não se espera que todo professor, merendeira, coordenador pedagógico seja especialista na área da neurociência, psicopedagogia entre outras áreas da educação que tenha amplitude à saúde por meio da interdisciplinaridade do saber. Mas espera-se que a ignorância não atrapalhe o que poderia ser um desenvolvimento de um indivíduo que necessita de estímulo diante de algum transtorno comportamental.

            O que se torna evidente no meio educacional  é o despreparo para que o professor seja incentivado a ser um pesquisador. Falando dessa forma, parece que se desconhece a realidade paradoxa que o docente vive no País. Não havendo tempo ao menos para um preparo mais adequado às suas aulas, o que de fato não exclui a necessidade do professor ter conhecimento do histórico psicológico, biológico e cognitivo do seu aluno.

            O ser humano é transdisciplinar, ou seja, sua composição não pode ficar centralizada em uma única esfera que o compõe. E a crítica mais costumeira para o cenário educacional brasileiro é que as escolas ainda veem o aprendente como ser dotado de cognição e não mais do que isso. Por essa razão quando se depara com uma criança, jovem ou adulto com severas dificuldades de aprendizagem, a tendência é se apoiar em um diagnóstico que justifique a razão pela qual o sujeito não aprenderá como todos os outros.

            É essencial que o profissional que vá atuar em campo para investigação das dificuldade de aprendizagem, leve em consideração que nem sempre o transtorno que o indivíduo carrega é a única causa para  não aprender. Metodologias ultrapassadas, processos arcaicos de ensinagem, contribuem e muito para estagnação do aprender.

            A psicanálise nos informa sobre o desejo de aprender, o desejo de conhecer. Caso não haja no aprendente esse estímulo o processo ensino e aprendizagem ficará prejudicado. Nessa linha de pensamento crítico, também é utilizado para o professor, que sem estímulo ou desejo para ensinar, provoca reações semelhantes ao seus alunos. O que se está afirmando  portanto é que a dificuldade de aprendizagem pode ter origem biológica, psicológica, social e também na ensinagem, no conteúdo não trabalhado de maneira correta. Seria muito simples delegar aos diagnósticos e laudos a causa do não aprender.  

            O que proponho portanto é uma análise sobre a necessidade dos profissionais da educação, em especial aqueles que trabalham  diretamente com  os alunos, de uma atualização sobre os transtornos comportamentais.

            Ressaltando  Beguoci (2017):

Não há nada de errado em aprender com outras áreas do saber. É ótimo contar com o conhecimento de especialistas para identificar problemas que nós, por formação, não conseguimos. É justamente isso: contamos com (ou seja, somamos). Não se trata de obrigar ou limitar. Um laudo não deveria diminuir as expectativas que temos sobre os alunos. Deveria, apenas, acrescentar uma informação sobre como lidar com as pessoas. O problema é que o contar virou limitação. (BEGUOCI, 2017)

 

O autor do texto, fundamenta ainda o que foi exposto ao longo da dissertação. Segue o autor:

O laudo se transforma em um atestado para o professor. Já que determinado aluno tem um transtorno médico, muitos educadores se sentem confortáveis em diminuir as expectativas sobre ele. Isso precisa acabar. Vários países que deram grandes saltos em Educação também passaram por uma grande mudança de atitude. Eles dialogaram com os professores. Mostraram aos educadores que é preciso acreditar numa verdade simples: todos os alunos podem aprender. Cada um no seu ritmo, é verdade, mas podem. (BEGUOCI, 2017).

 

            É importante fundamentar nossa ação em pautas de outras áreas, porém a questão é, se um diagnóstico médico é fatalidade para não estimularmos nossos aprendentes ou uma orientação do trabalho que deve ser feito?

            A Educação Especial e com isso a Inclusiva não são meio de depósitos de alunos em salas regulares, sem ao menos que se tenha um atendimento adequado, com metodologia e propostas específicas.

            A importância de um laudo médico, assim como a importante comunicação entre pais e escola, sobre as necessidades específicas do aprendente é sobretudo ponto de apoio, uma investigação, uma procura, para melhor atender o educando. E não um fatalidade que relegue o mesmo ao esquecimento dentro de uma sala de aula.

            A postura da Escola, do professor e da família fará toda diferença na vida dessa criança, jovem ou adulto.

 

Bibliografia

 

BEGUOCI, Leandro. Um bom Professor não usa laudo como desculpa. Revista Nova Escola. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/6759/um-bom-professor-nao-usa-laudo-como-desculpa

CID-10. Disponível em: http://www.datasus.gov.br/cid10/V2008/cid10.htm

 

 Professor Marcelo é Pedagogo, Licenciado em História, especialista em Psicopedagogia, Tutoria em Educação a Distância, Pedagogia Empresarial e Dinâmica de Grupo, MBA em Coaching. Associado à ABPp-GO desde 2015.