Uma reflexão sobre a ressignificação do aprender.

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 Estive observando o comportamento de um aluno de 15 anos, ele é repetente por diversas vezes e ainda se encontra no sexto ano do Ensino Fundamental. Estava fora da sala para concluir uma simples tarefa que ele deixara de realizar em casa. Como o mesmo havia se sentado bem próximo de mim, observei o total descaso ou falta de vontade dele em realizar a sua tarefa. Aliás, não precisava ser nenhum especialista para perceber que o mesmo não queria nem estar ali, na  Escola em questão. Me coloquei a pensar imediatamente sobre a obra de Alicia Fernandez, “Inteligência Aprisionada”. E como essa obra faz sentido cada dia mais nos tempos que deveriam ser tão claros mas são tão escuros. Me refiro a tempos escuros porque em pleno século XXI, onde as novas tecnologias deveriam oferecer mais libertação ao aprender tem alienado os jovens a condição de manipuladores de Redes Sociais e absorvendo constantemente informações sem passar pelo crivo da razão. 

     Aquele aluno, no qual eu já conhecia superficialmente sua trajetória escolar, terminei criando um link entre o significado de aprender para ele e a sua realidade. Conforme Fernandez nos diz: O problema de aprendizagem que apresenta, sofre, estrutura um sujeito, se situa, entrelaça, sintomatiza e surge na trama vincular de seu grupo familiar, sendo, às vezes, mantido pela instituição educativa. (FERNANDEZ, 2011, p. 48). Uma reflexão válida aqui, dentro do campo da psicopedagogia: qual o significado que esse aluno dá ao ato de aprender, conhecer e ler? Como sua família valoriza o conhecimento? Não tentando ser reducionista ou fatalista, mas como uma criança, jovem ou adulto cujo meio dele, em que vive, não prioriza o conhecimento terá por consequência uma aprendizagem no processo normal ou daquilo que acreditamos ser normal? Ora Marcelo, você diria, então o aluno que mora na favela, no subúrbio ou na fazenda, cujos pais não possuem incentivo a leitura, escrita será mais propenso a ter dificuldades de aprendizagem? Eu respondo: sim, mas não está fadado ao fracasso, e não se trata de distúrbio de aprendizagem, mas como uma forma que aprisiona, ou uma das variantes, que detém a aprendizagem. Isso segundo Fernandez e sua perspectiva da Inteligência Aprisionada. 

     A escola, os professores, o psicopedagogo ou seja todos os agentes envolvidos no contexto do processo de ensino e aprendizagem, precisam ressignificar o conceito de aprender, de conhecer do educando. Do aluno. Ajudá-lo a recriar o conceito de aprender e dar o novo valor a fantasia do aprender. Muitas vezes, o que tem faltado ou que pode estar faltando entre nossos alunos é a fantasia do aprender, o voltar a sentir alegria e prazer no ato de conhecer. Não só se ater a um clique, a postagens instantâneas e se contentar com aquela informação. É necessário, e ai está o nosso grande desafio do século XXI, transformar meras informações em conhecimentos verídicos e fundamentados na ciência.

Esse apontamento que fiz ao longo do texto, não é conclusivo, naquilo que poderia aprisionar a inteligência desse aluno que observei, nenhum diagnóstico psicopedagógico deve ser  encarado como imutável. Mas que me deu uma ótima oportunidade reflexiva que compartilho com você, fundamentado na obra de Fernandez, na qual sugiro e recomendo a leitura. É um tema que deve ser amplamente estudo por todos os profissionais do conhecimento. Mas o maior objetivo meu aqui é estimular a reflexão ligada à Ciência e pesquisa. Nós professores precisamos sobretudo, sermos também pesquisadores da Educação. 

Marcelo Luiz de Resende

Pedagogo – Psicopedagogo 

ABPp 12.0824/15

Fernández, Alicia. A inteligência aprisionada. Porto Alegre. Artmed, 2011.